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INTOLERÂNCIA À LACTOSE

Atualizado: 24 de Ago de 2020

“QUANDO NADA MAIS PUDERMOS REALIZAR, O BEM E O BELO QUE FIZEMOS CONTINUARÃO SEM NÓS, SEU MOVIMENTO” - Armando Righetto



INTOLERÂNCIA À LACTOSE

INTRODUÇÃO

Cerca de 70% da população terá perda da produção de lactase após o desmame. Essa afecção causa uma gama de sintomas sistêmicos e no trato gastrointestinal.

Hipócrates já havia notado que algumas pessoas apresentavam queixas após a ingestão do leite, mas somente no início do século XX que a intolerância à lactose foi identificada e apenas no início da década de 60 a base bioquímica da doença foi propriamente definida.

MECANISMO DA DOENÇA

A maioria da população adulta é hipolactásica quando comparada aos bebês em aleitamento, tendo menores níveis de lactase, sendo assim chamados de lactase-cessantes.

Há três formas de lactase-cessantes:

1. Congênita: muito rara;

2. Pós-desmame (primária ou herdada): é a norma entre os mamíferos, e os humanos não fogem à regra;

3. Secundária: ocorre como resultado do comprometimento intestinal por infecções bacterianas, viróticas (rotavírus) e protozoários (Giardia, tripanossoma), senescência, doença de Crohn, doença celíaca, hormônio tireoidiano, etc.

GENÉTICA

Os geneticistas atestam que os lactase-cessantes são autossômicos recessivos, que os homozigotos lactase-cessantes apresentam ínfima concentração ao crescerem e que os heterozigotos têm níveis intermediários de lactase, entretanto, clinicamente essa distinção não é tão clara.

Há uma imensa variação entre os fenótipos individuais, tanto na hipolactasia quanto no limiar para a intolerância à lactose.

Alguns pacientes com sintomas intensos são heterozigotos para determinados marcadores genéticos ligados à lactase-cessantes (o fenótipo não é “tudo ou nada”).

O nível de lactase intestinal é baixo no feto, surgindo na 9ª semana de gestação, aumentando na 14ª semana e atinge o pico três dias após o nascimento. Entende-se, então, que o pré-termo apresente um período de hipolactasia.

Depois do desmame, cerca de seis a doze meses, a lactase começa a declinar e essa taxa de declínio varia amplamente entre os grupos étnicos.

INTESTINO GROSSO, BACTÉRIAS E TOXINAS

O intestino grosso deve ser considerado como um dos órgãos possuídos pelo homem que pode causar ações prejudiciais à sua saúde e à sua vida, pois o intestino grosso é o reservatório dos resíduos dos processos digestivos, e esses resíduos estagnam por tempo suficiente para ocorrer a putrefação. Os produtos da putrefação são nocivos, sendo que a putrefação bacteriana é a causa de todas as doenças” – Elie Metchnikoff (1845 – 1916) – Fundador da moderna imunologia.

No cólon há cerca de 10¹⁴ bactérias distribuídas entre cerca de 1.000 espécies. A concentração de oxigênio é baixa, daí mais de 90% das bactérias serem anaeróbias; cerca de 25% delas são bifidobactérias e o restante são bacteróides e anaeróbias facultativas. Existem ainda os fungos (Candida sp e outros fungos), as archaebactérias responsáveis pela produção do gás metano, as bactérias sulfurogênicas, etc.

As bactérias liberam uma ampla variedade de substâncias (dióxido de carbono, hidrogênio, metano, oxigênio, nitrogênio, amônia, cálcio, sódio, potássio, magnésio, ferro, álcool, aldeído, ácidos graxos, dióis de cadeia curta, dimetil hidroniza, produtos de degradação dos aminoácidos, vitaminas [K, B12, tiamina, riboflavina], lactose, citocinas, toxinas, enzimas, etc.) que sob determinadas condições (baixo oxigênio e oferta excessiva de substrato) faz com que o metabolismo bacteriano da lactose, dos oligossacarídeos e de outros substratos produza gases e uma vasta quantidade de pequenas moléculas orgânicas.

Por exemplo, a lactose não digerida alcança o cólon onde será desdobrada em ácido lático, ácido acético, hidrogênio e dióxido de carbono; a absorção dessas substâncias e, também dos subprodutos de outros carboidratos no cólon, pode explicar parte dos sintomas relacionados à intolerância os carboidratos.

DIAGNÓSTICO

Baseia-se, comumente, na correlação entre a ingestão de leite ou derivados e os sintomas pertinentes. Alguns pacientes não fazem relação de causalidade no momento da consulta e trazem, no retorno, suas observações a respeito; outros incorporam a idéia da enfermidade sem terem realizado exames comprobatórios.

Procedimentos que podem auxiliar no diagnóstico:

  1. Suspensão do uso de leite e derivados (produtos lácteos) e observação dos sintomas por quatro semanas;

  2. Uso empírico da enzima (lactase);

  3. Realização da curva de absorção da lactose por 90 minutos;

  4. Teste respiratório com hidrogênio expirado (substrato da lactose);

  5. Análise de polimorfismo genético C/T-13910;

  6. Medida da atividade enzimática em amostras de biópsia intestinal.

SINTOMATOLOGIA Queixas sistêmicas % Queixas intestinais % Cefaléia e tontura - 86% Dor abdominal 100% Problemas de concentração - 82% Distensão abdominal 100% Problemas de fixação memória - 82% Borborigmo 100% Cansaço crônico - 71% Flatulência 100% Dores musculares - 71% Diarréia 70% Dor, edema e/ou rigidez articular - 71% Obstipação 30% Fenômenos alérgicos - 40% (enfisema, Náusea 78% prurido, rinite, asma) Vômito 78% Arritmia cardíaca - 24% Úlceras orais (estomatite) - 30% Micções frequentes (poliúria) - <20% Guturalgia (dor na garganta) - <20%

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Queixas de dores, desconfortos, incômodos e cólicas abdominais, distensão, estufamento, inchaço, flatulência, roncos, obstipação ou diarréia são comuns no exercício profissional. Frequentemente, considera-se a hipótese de Síndrome do Intestino Irritável (SII), uma das afecções mais comuns confrontadas pelos médicos.

Além das queixas gastrointestinais, os pacientes relatam problemas sistêmicos como cefaléia recorrente, fadiga crônica, desconcentração, tontura, dores articulares e musculares, alergias (eczema, prurido, urticária, rinite, sinusite, asma, etc.), palpitação e micções constantes.

Estes sintomas extraintestinais e suas apresentações erráticas causam certa perturbação diagnóstica, ainda mais quando não há uma resposta satisfatória às medicações. Todavia, são manifestações infrequentes.

Os limiares de intolerância dos pacientes aos alimentos variam consideravelmente, confundindo o diagnóstico e o tratamento.

Cumpre lembrar que, uma abordagem dietética atual para a SII, a lactose é um dos componentes retirados sem necessária comprovação de intolerância.

Além da SII e da intolerância a outros carboidratos, a doença celíaca e o sobrecrescimento bacteriano do intestino delgado (SBID) devem ser considerados na avaliação clínica do paciente e eventualmente pesquisa laboratorial.

O desencadeamento do SBID não é raro na forma pós-infecciosa da SII, no diabetes e em algumas doenças neurológicas.

Tireopatias também podem causar sintomas intestinais. A anamnese não deve se restringir somente ao âmbito abdominal.

Fatores Distúrbios Má absorção Fatores Miscelânea Infecções Dietéticos Gastrointestinais Psicológicos Sorbitol, Colite Ulcerativa Doença Ansiedade Endometriose Giardia Frutose Doença de Crohn Celíaca Pânico Tumores Ameba Colite Doença Depressão Endócrinos Sobrecresci- Microscópica Pancreática Somatização mento Bac- SII – Síndrome teriano do Intestino Irritável

LIMIAR DE INTOLERÂNCIA À LACTOSE

Algumas variáveis são observadas. Os sintomas podem estar relacionados à dose de lactose ingerida no leite e/ou produtos lácteos derivados, à ingestão de alimentos industrializados ou não contendo lactose em sua preparação, à atividade residual da enzima intestinal, à habilidade da flora colônica em fermentar lactose, à taxa de esvaziamento gástrico, ao tempo de trânsito intestinal e a sensibilidade de cada indivíduo aos subprodutos de fermentação da lactose.

Os trabalhos conferem um limiar entre 6 e 12 gramas de lactose em dose única, apresentando queixas discretas ou mesmo ausência delas nos pacientes diagnosticados como intolerantes. Documentam também que a ingestão concomitante com outros alimentos aumenta a tolerância.

A dose de 50 gramas induz sintomas eventualmente intensos, a maioria em lactase-cessantes, sendo a dose para realização do teste diagnóstico. Todavia, relatos apresentaram queixas entre 3 e 5 gramas.

MANEJO

O foco é a eliminação dos sintomas – na ausência de outra doença subjacente – e algumas abordagens podem ser seguidas:

· Redução da lactose ingerida;

· Substituição por fontes nutricionais alternativas para manutenção de energia ingestão proteica;

· Manutenção da fonte de cálcio e vitamina D;

· Administração de preparações enzimáticas.

A redução da ingestão de lactose do leite e derivados traz conforto para o paciente eliminando uma série de sintomas desconfortáveis do seu cotidiano, mas o leite é uma rica fonte energética, de sais minerais (principalmente o cálcio), de vitaminas, proteínas e lipídeos. Então é fundamental para o paciente a substituição por outras fontes alimentares a fim de restabelecer esses elementos vitais para o seu estado nutricional.

O cálcio e a vitamina D ficam sob estreita vigilância, pois o leite é uma das principais fontes dietéticas diárias de cálcio e sua ausência leva a um aumentado risco de osteoporose e fraturas, tendo que ser reposto.

COMPARAÇÃO ENTRE O LEITE E OUTRAS FONTES ABSORVÍVEIS DE CÁLCIO Alimentos ricos em cálcio Porção (g) Cálcio (mg) Equivalência (1 copo de leite) Leite 200 244 1 Iogurte 200 244 1 Brócolis 71 35 3,6 (255 g) Couve 85 61 2,5 (212 g) Espinafre 85 115 13,2 (1,122 g)

EFEITOS ADVERSOS

São muito raros, mas eventualmente podem ocorrer com a preparação enzimática, como reações alérgicas (erupção cutânea, prurido e edema, mormente na face, língua e garganta), tontura e dispnéia. Pessoas com alergia ao mofo, e teoricamente à penicilina, podem ter predisposição a esses efeitos colaterais.

PERGUNTAS FREQUENTES ACERCA DA INTOLERÂNCIA À LACTOSE

O que é Intolerância à lactose?

Intolerância à lactose (açúcar do leite) é a deficiência da lactase, a enzima que quebra a lactose em açúcares mais simples para que possam ser absorvidos pelo sistema digestivo.

A atividade desta enzima, presente ao nascimento, tende a diminuir em grande parte da população a partir dos 2 anos de vida com uma redução progressiva, geneticamente programada, que se completa, geralmente, com a puberdade.

Quais os principais sintomas?

A perda da atividade da lactase conduz à desordens de natureza gastrointestinal, como dores abdominais, dor de estômago, inchaço, flatulência e forte diarreia, que ocorrem normalmente ao se ingerir alimentos ricos em lactose.

Esses sintomas são causados pela não digestão da lactose, mas não são sempre evidentes, pois seu aparecimento depende também do alimento associado à lactose ingerida.

A partir de qual idade posso confirmar a existência da intolerância?

A confirmação da existência da intolerância à lactose depende do histórico clínico dos sintomas, geralmente, aliado há um teste laboratorial que ajuda a confirmar as suspeitas.

Por isso, não há uma idade certa para se confirmar.

Bebês prematuros podem apresentar intolerância à lactose.

Crianças que nasceram de gestação a termo, normalmente não mostram sinais de intolerância à lactose até completarem pelo menos 3 anos de idade.

A intolerância à lactose pode começar em diferentes momentos da vida, não sendo possível prever quando.

Um teste genético positivo significa que em algum momento da vida sua enzima lactase será desligada, por isso, você já pode começar uma prevenção.

O teste genético para intolerância à lactose é um instrumento fundamental para a análise acurada da intolerância à lactose quando comparado aos testes de laboratório tradicional que apresentam uma alta taxa de falsos positivos ou são particularmente invasivos (biópsia intestinal) ou demorados para realizar (teste respiratório).

O teste genético permite distinguir entre a intolerância primária à lactose de origem genética, típica da idade adulta, e a forma induzida, de maneira secundária, em decorrência de outras doenças ou infecções intestinais.

Assim, o teste genético é útil também como teste de exclusão, isto é, para excluir a causa genética de eventuais distúrbios de origem gastrointestinal.

Além disso, a intolerância à lactose em idade adulta pode influenciar a absorção do cálcio, a densidade óssea e o risco de fratura nas mulheres na menopausa, por isso é importante entender a causa dos distúrbios e, se for necessário, limitar o uso de alimentos que contenham lactose e sugerir uma integração de cálcio ou de lactase.


Como é feita a coleta?

Os alelos pesquisados neste exame biomolecular estão presentes em todas as células nucleadas do organismo humano. Dessa forma, várias amostras biológicas são aceitáveis para a realização do teste.

Utiliza-se a extração de DNA de células da mucosa bucal numa coleta rápida, simples e indolor (SWAB), o que proporciona DNA de alta qualidade para a análise.

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